Sustentabilidade no agro e gestão de riscos

December 18, 2024

O agronegócio brasileiro está diante de uma encruzilhada: como manter a competitividade e crescer, ao mesmo tempo em que adota práticas sustentáveis que protejam o meio ambiente e mitiguem os impactos de suas atividades no clima? Este foi o pano de fundo das discussões no painel Investimentos verdes e uso eficiente da terra durante o Sustainable Future Forum (SFF). O evento reuniu vozes influentes do setor financeiro, ambiental e agrícola, com uma missão clara: explorar como os fluxos financeiros verdes podem ser a chave para transformar o agronegócio no Brasil.

Moderado por Beatriz Secaf, líder de sustentabilidade do BNP Paribas Brasil, o painel contou com a presença de importantes executivos como Débora Oliveira (Grupo Votorantim), Juan Parodi (IDB Invest), Priscila Souza (Climate Policy Initiative – CPI) e Valmir Ortega (Belterra Agroflorestais). Em comum, todos compartilharam uma visão: o caminho para o futuro do agro brasileiro precisa ser traçado com base em sustentabilidade e inovação.

O avanço do agro sustentável e os riscos climáticos

É notável que os investidores estão cada vez mais preocupados com as mudanças climáticas e seu potencial de impacto na produtividade agrícola. Por isso, reduzir a exposição aos riscos é fundamental para garantir a rentabilidade dos projetos e não colocar em risco à produção de alimentos em grande escala.

De acordo com Priscila Souza, Head of Policy Evaluation do Climate Policy Initiative, é possível observar um aumento expressivo no volume de crédito rural voltado ao agro sustentável nos últimos dois anos. “Esse crescimento nos fluxos financeiros verdes é um reflexo de que o mercado já entende que o futuro do agronegócio está na sustentabilidade.” Para Souza, o setor agrícola não pode mais depender de práticas tradicionais que comprometem o solo e os recursos hídricos. Tecnologias limpas e a preservação ambiental devem estar no centro das operações.

Instrumentos financeiros para mitigar riscos

Para o IDB Invest, os bancos multilaterais têm um papel central na estruturação e na oferta de novos instrumentos financeiros. De acordo com Juan Parodi, Principal Investment Officer do IDB Invest, o foco da instituição é criar instrumentos que não só viabilizem projetos sustentáveis, mas que protejam os investidores contra os riscos inerentes a essas iniciativas, como a volatilidade climática.

Além das iniciativas privadas, a criação e a implementação de políticas públicas é um elemento importante para criar um ambiente de segurança e estabilidade para os investimentos verdes no longo prazo. “Para reduzir riscos, precisamos de um ambiente regulatório que dê segurança a esses projetos. Isso inclui políticas que incentivem o uso de novas tecnologias e garantam a rentabilidade das operações sustentáveis”, acrescenta Parodi.

A visão é clara: o Brasil só conseguirá expandir seu papel no cenário global do agronegócio sustentável se houver uma convergência entre inovação, financiamento e apoio governamental.

Neste cenário, a gestão do território brasileiro deixou de ser apenas um problema ambiental e passou a ser visto como uma questão de ineficiência econômica. Estamos destruindo recursos valiosos que poderiam ser utilizados de forma mais produtiva e sustentável”, alerta Valmir Ortega, sócio da Belterra Agroflorestas.

Para o executivo, uma das soluções com grande potencial de gerar impacto positivo nessa agenda são as agroflorestas, sistemas que integram a produção agrícola com a conservação florestal e que podem transformar áreas degradadas em terras produtivas e economicamente viáveis, além de melhorar a qualidade do solo e reduzir a pressão sobre os recursos naturais. “A agrofloresta é o caminho para conciliar produtividade com preservação. É possível, sim, produzir mais com menos impacto, mas isso exige uma mudança cultural no setor”, afirma Ortega.

Instrumentos financeiros para mitigar riscos

Não só de bancos e iniciativa pública se constrói o mercado. As empresas e grandes corporações também precisam desenvolver iniciativas de impacto, investindo em práticas que reduzam a pegada de carbono e que ajudem a tornar as respectivas cadeias de produção mais limpas e eficientes.

A atuação junto às comunidades locais é fundamental para desenvolver práticas sustentáveis e de longo prazo. Ao fortalecer os laços com as pessoas que vivem nas regiões onde operam, as empresas constroem uma rede de confiança e colaboração, essencial para a implementação de iniciativas que exigem mudanças comportamentais e a adesão de diversos atores. Além disso, quando investem no desenvolvimento local, elas contribuem para a criação de um ambiente social mais justo, o que impulsiona a busca por soluções inovadoras e sustentáveis para os desafios comuns.

Segundo Débora Oliveira, gerente geral de Tesouraria e Relação com Investidores do Grupo Votorantim, os projetos da empresa não se limitam à preservação ambiental. Eles também incluem o fortalecimento das comunidades locais e a proteção dos territórios onde a companhia está presente. “A sustentabilidade, para nós, vai além de cumprir metas de emissão de carbono. Queremos gerar um impacto positivo real e duradouro, tanto ambiental quanto social”.

Conclusão: o futuro do agronegócio sustentável

Para Beatriz Secaff, as principais lições do painel estão relacionadas ao potencial que o Brasil tem para se tornar um líder global em agricultura sustentável. Mas isso só será possível se conseguirmos superar desafios como o desmatamento e o uso ineficiente da terra. “Com o aumento dos investimentos em crédito verde e a adoção de práticas inovadoras, como as agroflorestas, o setor agrícola brasileiro pode se transformar e liderar um movimento global de sustentabilidade.”

No final das contas, o futuro do agronegócio não será decidido apenas no campo, mas também nas salas de negociação e nos fóruns de discussão, onde o alinhamento entre investidores, governos e empresas pode finalmente gerar um modelo de desenvolvimento que seja ao mesmo tempo lucrativo e sustentável. O Brasil tem o potencial de ser a vanguarda desse movimento – e, com a união entre financiamento e inovação, o país pode chegar lá.